terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Leitura obrigatória para alguns homens...




A Mulher Depois Que Ama



Uma coisa especial ocorre com a mulher depois que ama.

Reparem, estou dizendo: Depois que ama.

Não estou me referindo a ela enquanto está no ato do amor.

Disto se pode falar também, e a literatura a partir do romantismo e depois o cinema, modernamente, já tentaram de várias formas simular na relação amorosa como a mulher suspira, se contorce, desliza as mãos e entreabre a boca do corpo e da alma.


Mas, quando digo "depois que ama", refiro-me ao estado de graça que a envolve após o gozo ou gozos, e que perdura horas e horas e às vezes dias.

Fica macia que nem gata aos pés do dono. Mais que gata, uma pantera doce e íntima. Sua alma fica lisinha, sem qualquer ruga.

A vida não transcorre mais a contrapelo. Desliza...


Ela tem vontade de conversar com as flores, com os pássaros, com o vento.

Sobretudo, descobre outro ritmo em sua carne.É tempo do adágio, de calma e fruição.

Neste período, aliás, o tempo pára.

Em estado de graça ela se desinteressa do calendário.

O cotidiano já não a oprime. É a hora de uma ociosidade amorosa.

O fato é que a mulher nessa atmosfera sai do trivial, se angeliza e glorificada, pervaga pela casa.


O homem, animal desatento, às vezes não se dá conta. Em geral, nunca se dá conta. Ou dá-se conta nos primeiros minutos após o ato de amor, e depois se deixa levar pela trivialidade, deixando-a solitária em sua felicidade clandestina.

Na verdade, ela sobrepaira ao tempo, está adejando em torno do amado, que deveria suspender tudo para sentir desenhar-se em torno de si esse balé de ternura.

Deveria o homem avisar ao escritório:

- hoje não posso ir.

- estou assistindo à reverberação do amor naquela que amo.


E como isto se assemelha à floração rara de certas plantas. Os amados deveriam interromper tudo: seus negócios e almoços e ficarem ali, prostrados, diante da que celebra nela o que ele ajudou a deslanchar.


Já vi algumas mulheres assim.

Era capaz de pressentir a 115 m que elas estavam levitando de tanto amor que seus amados nelas desataram. Há uma coisa grave na mulher que foi ao clímax de si mesma.

Que não esteja distraído o parceiro ou parceira.

Ela tem mesmo um perfume diverso das demais.

É um cio diferente...

É quando a mulher descerra em si o que tem de visceralmente fêmea, tranqüila que, mais que possuída, possui algo que atingiu raramente.

As outras mulheres percebem isto e a invejam.

Os machos farejam e se perturbam.

É como se estivessem num patamar seguro a se contemplar.

É quase parecido a quando a mulher vive a maternidade. Mas aqui é ainda diferente, porque na maternidade existe algo concreto se movimentando dentro dela.


Contudo, nessa atmosfera que se segue a uma epifânica sessão de amor, diverso, porque ela está acariciando uma imponderável felicidade.


Estou falando de uma coisa que os homens não experimentam assim.

O gozo masculino é mais pontual e parece se exaurir pouco depois do próprio ato.


Só os escolhidos, os de alma feminina, vez por outra, o sentem prolongar-se dentro de si.

Mas em geral, é diferente. Terminado o ato, uns até rolam para o lado e dormem como se tivessem tirado um fardo do ombro, outros acendem o cigarro, vestem suas ansiedades e voltam ao trabalho.


É constatável, no entanto, que o homem apaixonado também transmite força, alegria, energia.

Ele oscila entre Alexandre, o Grande e o artista que chegou ao sucesso!

Também brilha, mas é diferente.


E não é disto que estou falando, senão do gozo feminino que não se esgota no gozo e se derrama em gestos e atenções por horas e dias a fio. Freud andou várias vezes errando sobre as mulheres e, por exemplo, colocou equivocadamente aquela questão de que a mulher teria inveja do homem por ser este um animal fálico, etc.


Convenhamos: inveja têm (e deveriam ter) os homens quando prestam atenção no fenômeno que ocorre com as mulheres, que ao serem amadas atingem o luminoso êxtase de si mesmas, como se tivessem rompido uma escala de medição trivial para lá da barreira dos gemidos e amorosos alaridos.


É isso: quando a mulher foi amada e bem amada, ela ingressa nessa atmosfera sagrada, cuja descrição se aproxima daquilo que as santas estáticas descreveram.


Uma aura de mistérios as envolve.

E isso, por não ser muito trivial, por não ser nada profano,
talvez se assemelhe aos mistérios gososos
de que muitos místicos falaram.


(Affonso Romano de Sant´Anna)

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